Sabe essa dependência pela felicidade, irritante utopia que nunca sai de moda? Pois é, continuo correndo sem parar, de coração na mão a gritar em busca dessa tal felicidade. Sei que é isso que nos move, mas, estou cansado de querer enxergar felicidade onde não existe. Nos quadros de galerias, no som das ondas do mar, no passarinho da cidade que, mesmo perdido de seu habitat natural, consegue cantar seu canto de felicidade. Em tudo eu a procuro.
E quando uma doença da alma, um tremor do corpo, uma falsa ilusão, uma casa sem cômodos, sem objetos, estanca essa procura, me pergunto: Então é isso... a felicidade é sem adorno? Vazia? O que ela preenche na verdade? E todo mundo dizendo que é coisa de instante. Você é pessimista, logo dizem. Não... eu sou realista. Essa onda de dizer coisas só pra agradar, pra dizer que está feliz é balela.
A felicidade é sem escrúpulo, cega, irritante quando se atrasa, pôr do sol a sumir no horizonte, fugaz. Então por que corremos tanto, se já sabemos que é só um piscar de olhos? Porque a felicidade não tem forma, ela é a luz do sonho possível, a mentira eterna que passamos a chamar de verdade, a razão de estarmos vivos.
O relógio ainda nem despertou e lá esta ele a caçar palavras no dicionário a fim de responder as imagens do sonho que lhe acompanharam madruga adentro. A mente parece que seca com o sonho, diz ele. Sempre arruma desculpas para ir ao dicionário. Pela manhã foi o sonho. Mas no decorrer do dia, lá vinha àquela necessidade de encontrar palavras que pudessem ajudá-lo a entender o tempo de sua caminhada matinal de casa até o colégio. Era na verdade uma vontade de decodificar os acontecimentos do dia a dia. Uma mente poética nunca cessa de apreender coisas, principalmente quando existe a possibilidade de entender a si mesmo e o mundo a sua volta.
Após estabelecer em sua mente os signos necessários seguiu tranqüilo em sua rotina. Depois da leitura do dicionário passou ao banheiro. Tomou uma ducha (sempre fria para espantar as idéias contrárias) o desjejum, arrumou o material e saiu com a mochila nas costas para o colégio. Nesse dia em específico, cinzento de nuvens-chumbo, havia um tom melancólico no ar. Talvez porque a chuva é sempre triste na cidade. Mas fez pouco caso e partiu. Na certa iria chover! Mas não quis se dar ao trabalho de voltar e procurar o guarda-chuva, que, aliás, era um utensílio que pouco usava. Fechou a porta e saiu.
Seguiu pela avenida. A escola em que estudava ficava a duas quadras de sua casa. Havia algo de estranho no ar. Além das nuvens cinza, a cidade estava vazia. Parou no sinal. Em meio aquele ar sombrio, uma doce melodia de pássaros atingiu-lhe o corpo. De repente um calor. Havia uma luz sobre sua cabeça. Era estranho porque parecia que ninguém mais enxergava aquela luz. Só ele a via. O sinal abriu e ele continuou andando. Foi de repente que sentiu gotas de papel caindo sobre sua cabeça. Eram palavras que desciam do sol. Muitas, milhares... como uma bomba atômica, uma força simbólica grande. E elas foram descendo: Amor, ódio, coragem, tristeza, fome, política, caráter, ética, bondade, covarde, catástrofe, religião, sexo, culpa, sobriedade, infeliz, feliz, sucesso, profissão, e a última que depois de muitas horas caindo, tropeçou-lhe nos lábios jovem que a proferiu em voz alta: POETA. E um devaneio de cores e imagens tomou-lhe o instante em que deu som à palavra.
Ele sabia sem saber explicar que falava a língua dos passarinhos, das formigas, das lesmas, dos homens, de toda a natureza. Sabia também que sentiria mais que os outros. A palavra POETA haveria de fazê-lo um homem diferente, lá onde vive o abstrato, o subjetivo, o metafórico, o enigma. Lá onde as respostas buscam respostas. Seguiu para a escola atordoado de ser mais um escolhido. Já em sala sentou na última cadeira. Debruçou a cabeça sobre os braços e adormeceu em seu sonho corriqueiro de dias azuis e de beleza infinita. Viu-se rolando em uma folha gigantesca de papel. Pensamento híbrido, solto na amplidão daquela página em branco que he soprava palavras esgarçadas, imagens sutis que traziam cores, criação pura. De volta a realidade, tudo parecia disforme. Os acontecimentos daquele dia tinham sido demais. Seu corpo tremia, sua alma rangia. Um misto de pânico e prazer retinha-lhe a mente. Atordoado, levantou da cadeira e foi cheirar a manhã. Era melhor do que a frieza das palavras do dicionário. Tudo vertigem. Deitou na relva a espantar as nuvens pra dentro de si e ali, pela primeira vez, sonhou acordado.
Atordoado de coisas começou a se sentir diferente. Era outro. Enxergava enviesado o movimento dos pássaros, o som retumbante da natureza, a atitude dos outros, tudo enfim. Sua mente satélite agora capta o invisível, o não dito, o sentido dos objetos, o incompreensível, o metafórico. Agora ele esconde o real entre palavras. Faz parte do lado humano do ser. Virou poeta.
Os olhos demoram a abrir. A madrugada tinge de luz os passantes. Ele cansado empurra a cadeira e sai. O som alto do boteco impede-o de ouvir os comentários que se seguem à sua saída, não liga. Acende um cigarro. Atravessa a rua lentamente. Estica o braço para um táxi que se aproxima. Faz frio. Ele foge das pessoas. O táxi chega ao destino. Ele paga a corrida e se aproxima da casa dela. Tira o tênis e corre desesperado areia adentro. Molha os pés e deita. A solidão esfria a noite. A doença da alma atesta uma chuva sem pingos. O frio esmaga a imaginação vedada de luzes negras. Ele põe-se a olhar para o mar. Todos os dias ele aprecia a superfície em busca do olhar carinhoso de sua amada. Contudo, sem ela, os dias ficam mais sem graça, sem gosto nos olhos, sem pintura nos dentes. Quando o sol se põe, o olhar solitário dele busca na luz da lua as impressões desse amor platônico, contemplação eterna que a noite proporciona. A lua deserta e a ilusão atormentada inundam-o. As estrelas escondem-se sob o luar. Durante dias e dias ele beira à praia. A sua ansiedade em torno do canto dela resseca a pele. As lendas enaltecem a alma dos curiosos, os céticos alimentam suposições. Armadilhas vão sendo montadas sem manual. Ele experimenta a neblina da maresia e se embriaga de algas, sufoca os olhos de verde marinho. Suas lagrimas ajudam a salgar o mar. Ele diz que o pacto é de lágrimas, sem sangue, sem esperança. Acredita na moça do mar. Ela, por sua vez, sabendo de tal fato, brinca com ele de saudade. Tem dias que não aparece, finge felicidade de espumas brancas.
Começou com um não. Aquela paixão havia nascido da impossibilidade, como toda paixão deve ser. Saiu acabrunhado, sem destino. Uma vodka acompanhava-o em sua investida negativa pelo término da solidão. Perambulou feito mendigo até encontrar o mar e a sua musa cor da madrugada. O horário dela meia noite, onde a antemanhã faz dos sonhos reais uma ilusão. A pele dela escamada, esbanja brilhos de sol. Pele de espelhos, frescor das manhãs, neblina de maresia, fragmentos abissais em brincos de pérolas. A música que ela canta vibra o coração dele. Ele grita: "Sereia, seremos nós?" Ela nada diz a não ser um sim em descolorido tom de canção. Ele abre o champanhe ofertado a ela por algum devoto do candomblé. Em seguida o cansaço lhe toma, mas ele segue firme madrugada adentro, olhos esbugalhados, petrificados de desejo.
O dia amanhece e ele sem direção. Um resto de discernimento sufocado pela luz ainda ressoa atroz. Ele precisa dormir. Consegue em uma farmácia um sonífero forte. Já em casa procura o chuveiro. Lava seu corpo de areia fina da madrugada. O dia precisa morrer. “Eu desejo que sempre seja madrugada. Quero ter forças para morrer da impossibilidade desse amor. Quero nunca mais ter passado, nem neblina arrogante em meus olhos”. A sua mentira formata uma visão de acordo com a desigualdade do presente. As coisas nunca saem conforme o combinado. A sua natureza recria o devaneio constante desse amor impossível. Aumenta a loucura ao som das gaivotas. A neblina insiste, sonha a realidade nua tom disforme de insegurança, adentra a possibilidade de tornar verdade esse amor, trancafiado em pele de mar e água que não se bebe. Ele desatina ardente sem sol. Destino de tolo.
A sua casa está mexida, revirada, sem forma, danificada de certezas que nunca chegam. O que deseja é ser amante dela. Poderia marcar o dia que quisesse. A hora, a trilha sonora do primeiro beijo. Ela está no comando. Buscou o espelho e se perdeu. Não se via. Não se reconhecia. Vendeu sua alma por aquela crença, mas crer consumiu-lhe o ser. Uma boa parte de seu passado havia se esvaído, se diluído à beira mar.
Deitou pensativo. Conseguiu relaxar e dormiu. Seis da tarde. O tempo lá fora é o mesmo quadro da noite passada. Neblina sem álcool, átomos de lágrimas... Apanha uma maçã, troca de roupa e sai à procura de sua amada. Ela costuma demorar. Põe-se com destreza a construir à beira mar um castelo de sonhos, de cômodos largos e cores silvestres. A primeira noite passa. A segunda, a terceira... Na décima quinta noite ela aparece. Ele a olha sem reconhecê-la. Ele diz: "Você mudou. Algo mudou em você, não sei... Construí e reconstruí esse castelo de areia pra nós morarmos. Sonhei, mas você mudou... Eu até gostaria de saber por quê?" Ela nada diz. Ele já não tem mais forças. Só os seus olhos agora dizem. A sua volta, vários outros corpos dilacerados de amor como o seu. Ele pergunta pra ela: "Há um lugar específico para quem morre de amor? Quem são estes que padecem ao meu lado?". Ele não houve mais nada, nem mesmo a canção que era cantada por ela todos as noites quando chegava.
Pela primeira vez ela saiu do mar em busca dele. Nua, de cabelos escorridos, beleza endêmica, angelical. Toma-o nos braços e entra no mar. Ele, embriagado do cansaço da morte não percebeu que ela veio buscá-lo em seu sonho.
Começou a cair de braços abertos. Mundo dos olhos. Bisturi no tempo. Seria a soma das coisas o resultado de tudo? Recomeçaria agora se fosse possível. Salta pra fora das coisas do sentimento. Emoldura a tristeza pintada a óleo. Um amarrado de coisas, emboladas, enviesadas. A queda é livre, ligeira. Um zunido nos ouvidos, ventos em dó, elevação da alma. De repente uma forte dor nas costas e sentiu que asas brancas brotavam no sul de seu corpo. Dirigiu a liberdade bem próxima da tal felicidade. Haveria receios de enfrentar o mundo sozinho? Ele, estilhaçado de tudo, jogou-se. Ondas de dores massageavam seus ouvidos em comunhão com Bach. Um deslize de alma. A fraqueza foi fazer do outro a sua maior falta. Seu corpo ao vento enxergava tudo além, mas sentia tudo aquém. O azul subiu-lhe à cabeça. Estrelado de dúvidas contemplou a lua. Ela sempre marca o tempo da renovação, mas muitas vezes minguante de lágrimas. O tempo não conseguiu salva-lo. E aquele corpo cairia arrependido de viver, oco por dentro.