quinta-feira, 28 de julho de 2016

O Perdão



Silêncio. Os olhos fechados buscam palavras. Restos na contramão incendeiam-me a mente. Preciso despir a raiva, a ingratidão, o olhar torto. Preciso secar a maresia na pele com lágrimas quentes e tentar de novo. O perdão deve ser leve como a flor de algodão ao primeiro sopro. Sem volta, sem arrependimentos. O perdão devora a corrosão, devolve a liberdade da alma. As flores possivelmente nos perdoam por enaltece-las fora de seu habitat natural. Tranquemo-nos por dentro. Façamos uma revisão interior e sem delongas deixemos o amor entrar pela porta da frente, a voz da paz soar em nossos lábios, depois façamos do verde o cenário de nossas atitudes. Perdoar não é proferir o famoso “eu te perdoo”. Perdoar é seguir sem amarras, sem ruminar o talvez ou “se”. Havemos dessa forma de seguir sem dor de alma, melhor do que se contorcer na cama, lúgubre e estilhaçado. O perdão desata os nós da garganta e passamos a enxergar o que se vai por fora em consonância com o que se vai por dentro. Às vezes encontramos a felicidade no ato de perdoar. Depois, com sorte, teremos a estranheza da felicidade em nossas reminiscências como lição. E como quem adormece na paz mortal seguimos loucos plenitude sobre a condição de caminhar juntos e nunca à frente. Sejamos nobres e perdoemos por nós, e perdoemo-nos. 

Marcos Vidal

domingo, 20 de setembro de 2015

Depois de mim






Dos olhos presos ao anzol
esticados no horizonte
duas cortinas de lágrimas
encontraram-me:
uma de montanhas rasas
e outra de margaridas nuas.

Do balão de nuvens
pregados no azul
um pedaço de vermelho
rasgou-me;
de cinza em torno
vento ventando
fez zum zum zum de olho
enquanto ardia-me a alma.

Ao final percebi:
zebra tem pente frouxo
não faz distinção entre listras, pois
destrocei os sins e só encontrei os nãos
atazanando abelhas de trás pra frente
enquanto dormia.

Depois, arrumei a mala
e de frente pra encruzilhada
me perdi.

Marcos Vidal

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Felcidade ou a vontade de fingir colorido




Sabe essa dependência pela felicidade, irritante utopia que nunca sai de moda? Pois é, continuo correndo sem parar, de coração na mão a gritar em busca dessa tal felicidade. Sei que é isso que nos move, mas, estou cansado de querer enxergar felicidade onde não existe. Nos quadros de galerias, no som das ondas do mar, no passarinho da cidade que, mesmo perdido de seu habitat natural, consegue cantar seu canto de felicidade. Em tudo eu a procuro.
E quando uma doença da alma, um tremor do corpo, uma falsa ilusão, uma casa sem cômodos, sem objetos, estanca essa procura, me pergunto: Então é isso, a felicidade é sem adorno? Vazia? O que ela preenche na verdade? E todo mundo dizendo que é coisa de instante. Você é pessimista, logo dizem. Não... eu sou realista. Essa onda de dizer coisas só pra agradar, pra dizer que está feliz é balela.
A felicidade é sem escrúpulo, cega, irritante quando se atrasa, pôr sol a sumir no horizonte, fugaz. Então porque corremos tanto, se já sabemos que é só um piscar de olhos? Porque a felicidade não tem forma, ela é a luz do sonho possível, a mentira eterna que passamos a chamar de verdade, a razão de estarmos vivos.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

O sonho






Medo de pegar no sonho, de transcreve-lo em minha pele, de olhar em seus olhos e achar que tudo acabou. Os instantes são pra ele, as expectativas são pra ele. Ah o sonho, leve feito flor de algodão a cruzar os ares no primeiro sopro. Medo de olhá-lo de perto, de sentir seu cheiro e seguir com ele. O boicote é tão natural que o sonho vira eterno, desses que circundam a mente até quando se está a dormir. Embora todas as rezas sejam para a saúde dele, o mantenedor de vibrações e saúde mental, às vezes foge dentro de um outro aprendiz de ilusão, a enfeitar de pronto, a luz imaginária das manhãs que se vão com o tempo. Coisa fugidia, passageira, entre as muitas ilusões; primeiro o sonho nunca se mostra na primeira pergunta. Perdido no labirinto da mente miserável, apetece uma camuflagem sempre que o cenário se apresenta entre um déjà vu e outro, entre sombras, a clareza da beleza de poder ser e ver a sua realização. Ele precisa em seguida tornar a esperar como se fosse um presente a nutrir a alma humilde, em busca de descanso, embora o som que venha da fantasia que o sonho provoca seja de uma sinfonia das mais belas entre Mozart e Bach, ou mesmo do canto simples de um passarinho sem grife, ali perto da janela.  Entre nuvens que se moldam o tempo inteiro ele aparece de maneira subliminar, a espreitar de olho torto a monstruosidade da pálpebra que enverga em constante balé e se deixa mostrar a nuance de seus olhos. Eu a querer saber das sobrancelhas grossas e lábios carnudos enquanto ele dança e finge orgasmo a minha frente. O sonho é desses que chama o táxi e este logo aparece, como se quisesse esfregar na cara de quem riu de sua capacidade de construir o instante. O sonho entorta os passos de sacanagem, tropeça pra ser segurado, mesmo que seja pelas mãos já velhas e cansadas do meu corpo que já dá sinais de fraqueza e arrepio em relação ao seu charme. Eu tenho medo de me declarar e ele não entender os meus anseios e dormir sem viver ou ouvir a minha história, construindo cada detalhe, discurso fremente para uma plateia heterogênea a me aplaudir no fim, a pedir bis. O sonho sentiu que eu falava dele. Escondeu-se no jardim entre bromélias e jasmins, logo à frente da figueira um fila de formigas espera por folhas e contornam sua pegada. O sonho tem um pisar firme, embora nunca consiga sentir ou mesmo intuir a sua direção quando foge. Espantado, é capaz de ficar meses, anos sem dar as caras, só pra me ver chorar de aflição e saudade, sensação de se perder como se tudo fosse acabar e a morte fazer sentido. O sonho é cruel, ele sabe tornar-se escuro quando a aflição invade canções e camas, sem me deixar dormir ou contemplar a natureza quando estou no campo. Quando viajo e me ausento, quando estou distraído, quase cego pro mundo, ele me atravessa, segura o meu reflexo diante do espelho e me faz sentir a vida inundando o fragmento do dia mais próximo do que podemos chamar de felicidade, desses instantes em que o sol se mostra entre tudo, claro e vivo. O sonho vem de antes, espécie de expiação a me acompanhar de outras vidas, normalmente são sonhos impossíveis, que fazem penar e refletir pra saber se somos mesmo feito de carne e osso. O sonho é tão infantil às vezes que corre pelo quintal a exigir que brinque de pique-esconde com ele, e eu ali, a contar de um até três pra ver se consigo depois acha-lo, antes mesmo de eu conseguir bater: um, dois, três sonho, atrás da árvore. Nunca consigo descobri-lo, e me pego chorando muitas vezes no primeiro degrau da escada, junto ao portão velho e enferrujado que se vai nas minhas lembranças; quando pequeno fingia gostar de tudo só pra sorrir o dia inteiro e estar perto de todo mundo. Quando se é criança e a inocência ainda circula pelos olhos, ele parece ficar mais próximo, coisa de herói que se mostra só quando o clímax costuma acontecer, quando as coisas se mostram quase diáfanas sob o cristal dos olhos. É como se quisesse deitar-me com ele, numa espécie de incesto, de alisar suas partes em busca do meu próprio prazer, a descobrir no primeiro toque a vida adulta a circundar a quebra de uma era, a da inocência. O sonho tem muitas fantasias e máscaras. Quando penso que aprendi a reconhecer os seus trejeitos, logo ele muda de voz e manca com a outra perna fingindo ser outra coisa, menos o meu sonho, mas nunca aquele que me fez prestar atenção em mim, quando da primeira vez se apresentou. Logo senti vontade de me cuidar, de gostar mais de mim, essa coisa que chamam de vaidade, sim. Meu deus, como tudo era formidável e constante. Ele me ensinou a olhar as coisas, a sentir o seu cheiro, a guardar sempre o que tenho de melhor, como se tudo fora de mim não tivesse valor e nem existisse. É claro que me assalta enquanto durmo, me alisa enquanto estou morto pro sono. Quando acordo sei que esteve por aqui, porque costumo sorrir quando ele faz assim. Podem me chamar de pervertido, mas ele vem sempre quando estou a fim de fingir que estou triste. Até porque, de tanto fingir costumo ficar e cair em si das coisas vazias e sem nexo, fora da tela dele, do sonho. Ele nunca quis enxergar com os meus olhos, embora diga que está sempre em mim e comigo. Mentiroso, eu digo, você não tem estrelas nos olhos, não sabe que as coisas estão fora desse altruísmo esperançoso que circula pelo teu desejo me fazer teu cumplice. Ah sonho, por que você se vai quando podíamos amanhecer abraçadinho e mais tarde poder tomar um chocolate quente, nesse inverno que resseca a pele e dói os ossos? Só ouço a porta bater ao longe e os cabelos dele a balançar lá embaixo, bem antes de pedir que volte mais tarde. Ele me faz bem porque nunca tenho a sensação de estar só, embora seja este mesmo a fluidez com que a sensação me invade e me toma. Mas sabe quando você está para tomar uma decisão, e mesmo que seja só inspiração, você sabe que precisa ir adiante? Pois é, ele quando chega, não tem futuro certo, logo a decisão já aparece tomada e calculada, mesmo que haja prejuízo. O sonho é bem cruel, mas de uma sabedoria invisível, ele flerta com a minha ânsia quase sempre, embora eu nunca preste atenção no tempo escorrendo, sim, porque essa coisa de ir apenas por ir, cansa. Tenho enfrentado muitas coisas por ele. Gostam de alimentá-lo com nomes: felicidade, gozo, alegria, paz interior, etc., ai, tanta coisa boba que me irrita. Basta o tempo passar e logo perguntam: e o sonho? Porra, não sei mais dele. Nunca me deu valor, fingiu que eu era, mas nunca me reconheceu, nunca me disse um oi, tá, andou pelas esquinas a me espiar pra voltar pra casa sozinho, mas e daí, muito pouco. Eu gritei e morri de amor, nunca me traí pra seguir adiante com ele. Briguei com todo mundo, fui xingado, mas de nada adiantou. Ah sonho, se você soubesse o quanto eu ainda te amo... mas eu não posso mais. A partir de hoje fecharei a porta dos meus sentidos. 

Marcos Vidal