quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Eu quero fugir de mim



Antes que a noite acabe
Antes que a lua se apague
Antes que o sol me cubra
Eu quero fugir de mim.

Antes que me desconheça
Antes que a lua mingue
Antes que a flor morra
Eu quero fugir de mim.

Antes que tudo faleça
Antes da enxaqueca cegar-me
Antes do antes do antes
Eu quero fugir de mim.

Antes que a sombra cresça
Antes que eu desapareça
Antes que o mundo apague
Eu quero fugir de mim.

De forma branda
De ponte-aérea
De pedalinho
Com entorpecentes
Com remédios
Com literatura.

Marcos Vidal

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Se eu pudesse...



Se eu pudesse dividir a tua dor,
A tua respiração trancada,
Os teus olhos mareados de cimento
E nuvens... Se eu pudesse
Sentiria tudo inversamente
Adequando brisas as tuas
Noites quentes, sem medo de
Fazer-te frio.
E de manhãzinha te acordaria com
Café bem quente e adornaria teu corpo
De frutas muitas.
Ah! Seu pudesse...
Correria sonhos em meu cavalo
Marinho e subiria a pé as escadarias da Penha
E cumpriria a promessa de enraizar-te em mim.

Marcos Vidal


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Sensações sobre o primeiro dia do ano



Deixa-me respirar um pouco dessa fantasia, dessa euforia e de tudo que leve tempo pra se acostumar. Um pouco de harmonia nesse tal egoísmo fingido, de poder acreditar que a diferença se instaura no olhar, de poder acreditar ser como os outros nos veem.
A minha poesia revira as coisas, as pessoas, o real. Viver entre esse limiar faz de mim um ser ausente e bucólico, antecedido pelo pouco valor que dou as coisas.
Sobre a película da vida descubro coisas, nunca com tempo de rever ou reviver, e mesmo sabendo disso não sou como os outros; e ficar no meio do caminho virou mania minha. O futuro de todo ano novo é fantasioso e sem escrúpulos, embora o tempo em que passo a pensar nos instantes que compõem a vida não leve a resultado nenhum.
 A neutralidade instaura um sabor de novidade, de fugacidade entre dois seres estranhos que se encontram e se reconhecem um no outro, como num déjà vu a embaralhar o centro do pensamento que deseja desvendar o mistério do já visto. É dessa sensação de que falo, dessa arrogância, dessa misteriosa cereja que compõem a nossa cobertura.
Estagnar o futuro no presente mais simples e alegre, congelar a sensação do ventre da mãe em todos os instantes, no desenho que fazemos com as mãos no ar, no corpo mudo que os outros leem sem tarja preta, sem censura, a leveza que somos sabendo-se pesado, trancado a sete chaves no mais puro deslumbre dos fogos que clareiam o céu. O primeiro dia deveria ser néctar adocicado antevisto pela lente de uma abelha, a traçar caminhos que perfazem o sentido natural e animal da nossa estrutura cerebral. Molécula arritimada, pétala seca sobre trilhos de pedra, córrego d’água a ferir de perto o caminho das formigas. E eu, também esse ser mínimo e inoperante, deixo o vento levantar-me a vela e dizer-me o caminho das moscas nesse ano que começa.
 Primeiro dia ausente: sem a festa dos olhos, sem o sorriso largo dos morcegos, sem a cruel mania de achar algo sobre tudo, sem conseguir cavalgar sobre o irreal se achando, sem a busca frenética e irresistível da perfeição, do fazer-se presente, sem a repetição inanimada e mareante sobre o medo, sem a febre da casa vazia sob as nuvens desenhadas a lápis, sob os cogumelos flamejantes derretidos por conta do sol escaldante na cidade que vai sendo consumida pelo calor nada humano.
A quentura vai engolindo a gente com sua boca enorme, transformando corpos e pensamentos, estagnando vírus em nós. O primeiro dia não aquece as previsões, e, alucinado, estabeleço o vazio como meta zen e reumática a perseguir a ilusão ensanguentada da mentira seca. O primeiro dia me enoja de contar nos dedos a minha falsa plenitude, de seguir com a educação acreditando ser, mas que ninguém percebe. Tudo que faço é para que percebam a minha educação? Nunca fiz. Mas estou cansado e desnutrido de fingir que educação é mania nacional. Foram me moldando desde que nasci. Abro a porta e saio sem saber se antes era o meu corpo mesmo que dizia tudo que foram creditando a minha pessoa, a me obrigarem a andar na corda bamba, a fazer o poeta a gritar sem som, que pra fazer valer o brilho dos meus olhos precisei comprar palavras.
 Essa arrogância cibernética a mudar as pessoas entrecortadas de cliques, o deus estampado na palma da mão a comandar o cursor, a redirecionar a ilusão em uma potência maior. O primeiro dia é sem parágrafo, sem compra nem venda, sem arquitetura, com afunilamento, com mais lamento que funil, mais estreito, inquieto, desejando soberba, mais fraco, irrisório.
Cada vez mais o desejo pelo real inunda a minha veia. Vai dando uma rouquidão, uma paranóia, dada a volúpia de emoções desconcertadas e atrevidas, porque a morte sempre estará ali a espreitar de soslaio com a sua imensidão misteriosa a nossa pequenez. Sensações que o primeiro dia causou em minha mente cansada e velha, sempre velha, a descobrir um corpo sem ritmo, perdido entre os vivos.
Estar perdido e saber que se está perdido dói mais do que quem sofre de Alzheimer. A lucidez esquarteja o instante das coisas quando se está ausente, essa razão de buscar ser, de querer esquecer sem saber como. Acabei de passar pelo primeiro dia, e tudo que guardei foi a D. Hermínia dizendo-se perdida em frente à porta do quarto.
Salve a saúde da vida, meu ano novo querido!

Marcos Vidal