segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Castigo




Na esquina do meu pensamento
O silêncio engrandece
O vazio dói
O vento não leva consigo a solidão.

Aguardo atrás da porta,
de castigo.

A janela larga permite ver
os pássaros na árvore.

Ali permaneço indiferente a tudo.
As encruzilhadas do pensamento
seguindo o percurso de pedras.
Sozinho, desejo ser dois.
A campainha tocou anunciando
o recreio.

Marcos Vidal

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando




Quando me calo, sou.
Quando me vejo, inexisto.
Quando sorrio, respiro melhor.
Quando grito, ensurdeço.
Quando canto, liberto-me.
Quando penso, minimizo-me.
Quando pinto, esclareço minha perspectiva.
Quando escrevo, minto.

Marcos Vidal

sábado, 8 de outubro de 2011

Diálogo




De nada serve todo esse desgaste emocional. Você vai pra onde? Não sei. Pra frente, pro novo. Eu falo que você está se doando demais. Já disse pra olhar mais pra você. Mas olhar pra mim como? Se quando me vejo, logo me perco? Fui desaparecendo da vida dos outros, assim como a palavra escrita a lápis depois de um longo tempo. Ainda tenho medo de seguir sozinho. Mas se você não estiver pronto, o mundo não vai saber recebê-lo. E quem disse que quero ser recebido? Eu tardo sempre. Não quero chegar em primeiro. Prefiro o entrecaminho, sem diferenças, a expectativa de seguir. Eu não entendo por que você revoga essas coisas todas. Seja ao menos. Ser? Mas é tudo que tenho tentado esse tempo todo, é ser. Ser melhor, mais humano, menos babaca. Mas quem disse que eu consigo? Ando misturado disso tudo, sem saber ao certo o que farei com os próximos dias que são iguais aos de hoje. Sabe essa dor que dói por dentro? Pois é, ando sofrendo dela. Ela chega quase sempre quando me esquecem. O seu mal é que você enxerga coisas que ninguém enxerga, fica aí alimentando coisas só pra sofrer de verdade. Você diz isso porque não costuma ser esquecido. Eu desmarquei tudo pra ser lembrado, deixei-me livre para qualquer convite que me tirasse desse tédio. E sabe o quê aconteceu? Nada. Ninguém lembrou de mim. Você é muito dramático. A vida não é essa projeção de amizade sincera. Como não? E é de quê? De coisas falsas? Não exatamente como você acha que é. Na vida meu caro, temos que ser frios o bastante para que nada estilhace o nosso interior. Você sempre coloca a culpa nos outros, mas na verdade, ela é sua. Você que projeta essas merdas todas. Está bem! Deixa estar! O que se passa em mim você não saberia mesmo. A sensação que tenho, é de que falo somente para os astros e fantasmas que vivem comigo. Gosto dos mortos porque escutam e não falam. Mas ainda assim existe a porra do isolamento que eu mesmo provoco. Mas os mortos não costumam interferir. E essa loucura toda vai ficando mais forte em mim. A vida, meu caro, é dose única e letal. Não exija demais o que nem você mesmo sabe. Mas eu não exijo nada demais. Quem disse que não? Você se isola e quer ter atenção? Eu quero que me reparem, sem sol, sem nuvens... jardim de cores a despertar manhãs. Mas isso não vai adiantar de nada. Então devo me ir. Fugir para qualquer terra estranha e recomeçar. Mas recomeçar não é fácil. Você tem que esgotar todas as possibilidades, porque sem esvaziamento tudo vai parecer bem mais vazio e disforme. Agora vê se deita um pouco e ao acordar agradeça por ainda estar vivo, quem sabe assim as coisas estejam nos seus lugares?


Marcos Vidal

sábado, 24 de setembro de 2011

Entre Nuvens




Entre nuvens
moldo teu corpo,
um segundo apenas.

Entre montanhas
meu verde te floresce.

A diversidade
do meu olhar prospera
ante manhãs...

Deusa fria
enxergas a minha sina?

O rosa dos teus lábios ainda brilha no meu.

Desatino meu sexo
e em teu mundo encontro-me.

Velas contornam teu corpo
No vento do meu coração sem sangue.

Invento o verde de mim
sem bulimia
sem anemia
sem neblina

Entre nuvens
teu cheiro exala...
enquanto garças navegam em branco.



Marcos Vidal

domingo, 18 de setembro de 2011

Como posso?




Como posso querer
Que todos os dias sejam iguais
Se até mesmo o mar que ontem
Era azul passou à verde
Na manhã de hoje?

Como posso querer
Que tudo seja igual
Se até a fealdade tem lá
A sua beleza?

Como posso querer
Que você esteja presente
Se até eu ando ausente de mim mesmo?

Como posso?

Não conheço certeza
De nada, e antes que eu
Me arrependa da frase feita
Pergunto-me: Como posso?

E sem resposta
Sigo a inventar nuvens
como sei.

Marcos Vidal

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Olhos de nuvem




Ela acordou de nuvens nos olhos
Cabelos violeta e sobrancelhas verdes
Felicidade aberta em forma de morango nos lábios
Convite para o beijo da manhã

Seguiu harmoniosa, citricamente
Alaranjada, de pele lisa
Sabendo que o dia azul seria bem mais
Naquele dia.

As borboletas cantavam pássaros
Iluminadas de ferrugem nas asas
Etílicas ardências na aurora vermelha.

Ela sabia feliz
Que o dia lhe reservara
Como uvas que brotam
Por trás das parreiras meninas
Um sabor de coisa doce.

Hermeticamente, ela tecia
De cores o seu dia sem formas
Adormecida sobre o sonho
Com olhos d’água.

Corre jardim acima em busca
Das margaridas lilases
E de grilos mudos
Que se alimentam de entretom.

Quando anoitece
Cobre-se de brisa fresca
A esperar rosas manhãs
Em dias de beija-flor

Marcos Vidal



sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um sopro.
Vida talvez.
Vida?
Feita de quê?
De pássaros, borboletas
e toda natureza pungente em nós.
Por que matamos para comer?
O meu futuro é agora,
e não importa sobre o que viverei.
Limpeza externa e interna.
Preciso ir com calma.
Um trovão gritou dentro de mim,
e de repente solidão,
não uma solidão qualquer e pequena,
mas um extra de tudo.
Ato e decisão,
nossa opção do que quer que seja.
O verbo comeu extasiado a capacidade
de reproduzir a falta que me finda.

Marcos Vidal