sábado, 24 de setembro de 2011

Entre Nuvens




Entre nuvens
moldo teu corpo,
um segundo apenas.

Entre montanhas
meu verde te floresce.

A diversidade
do meu olhar prospera
ante manhãs...

Deusa fria
enxergas a minha sina?

O rosa dos teus lábios ainda brilha no meu.

Desatino meu sexo
e em teu mundo encontro-me.

Velas contornam teu corpo
No vento do meu coração sem sangue.

Invento o verde de mim
sem bulimia
sem anemia
sem neblina

Entre nuvens
teu cheiro exala...
enquanto garças navegam em branco.



Marcos Vidal

domingo, 18 de setembro de 2011

Como posso?




Como posso querer
Que todos os dias sejam iguais
Se até mesmo o mar que ontem
Era azul passou à verde
Na manhã de hoje?

Como posso querer
Que tudo seja igual
Se até a fealdade tem lá
A sua beleza?

Como posso querer
Que você esteja presente
Se até eu ando ausente de mim mesmo?

Como posso?

Não conheço certeza
De nada, e antes que eu
Me arrependa da frase feita
Pergunto-me: Como posso?

E sem resposta
Sigo a inventar nuvens
como sei.

Marcos Vidal

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Olhos de nuvem




Ela acordou de nuvens nos olhos
Cabelos violeta e sobrancelhas verdes
Felicidade aberta em forma de morango nos lábios
Convite para o beijo da manhã

Seguiu harmoniosa, citricamente
Alaranjada, de pele lisa
Sabendo que o dia azul seria bem mais
Naquele dia.

As borboletas cantavam pássaros
Iluminadas de ferrugem nas asas
Etílicas ardências na aurora vermelha.

Ela sabia feliz
Que o dia lhe reservara
Como uvas que brotam
Por trás das parreiras meninas
Um sabor de coisa doce.

Hermeticamente, ela tecia
De cores o seu dia sem formas
Adormecida sobre o sonho
Com olhos d’água.

Corre jardim acima em busca
Das margaridas lilases
E de grilos mudos
Que se alimentam de entretom.

Quando anoitece
Cobre-se de brisa fresca
A esperar rosas manhãs
Em dias de beija-flor

Marcos Vidal



sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um sopro.
Vida talvez.
Vida?
Feita de quê?
De pássaros, borboletas
e toda natureza pungente em nós.
Por que matamos para comer?
O meu futuro é agora,
e não importa sobre o que viverei.
Limpeza externa e interna.
Preciso ir com calma.
Um trovão gritou dentro de mim,
e de repente solidão,
não uma solidão qualquer e pequena,
mas um extra de tudo.
Ato e decisão,
nossa opção do que quer que seja.
O verbo comeu extasiado a capacidade
de reproduzir a falta que me finda.

Marcos Vidal

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vai...




Vai...
Faz de conta que me ouve
E cola teu ouvido em meu coração.
Não deixa a lua solta nessa tua amplidão.
Guarda um segundo pra minha voz
Pois o vento, mesmo veloz, há de ouvir
O que tenho pra dizer.

Vai...
Escuta com os olhos as silabas
Dos meus cílios
Escuta o meu sorriso quando
Separo meus lábios do teu...
Guarda a minha ânsia no teu silêncio.

Vai...
Mas vai logo... pois as estrelas não tardam em dormir
Quem sabe uma nesga de luz estrelar
Te faça brilhar manhãs.

Vai...
De mansinho pela madrugada
Escuta o lamento no blues que gravei pra ti.
Sem cor, azul desbotado
Esgarçado de velho filme.

Vai...
E rouba das borboletas
O vento mais brando que puderes reter.
Na alvorada cinzenta
Retire-me o ar...
E quando notares que o silêncio jaz
Guarda-me sem pressa
Em tuas noites preguiçosas.


Marcos Vidal

sábado, 28 de maio de 2011

Palavras sem endereço

Falo e ninguém me ouve. Uma teia em meus olhos, tudo preto e branco. Deserto de sombras, cotidiano de maresia consciente onde cartas se perdem. Alguém por um segundo
pensou e enterrou o não dito, atravessadamente. Sensação do real, outra coisa inegavelmente viciante.
Sonho quando o mar canta e acordo sem rumo, estrada de barro enlameada, beleza seca.
Tenho mergulhado em mim abissalmente, entre coisas salgadas que nada dizem.
Escrevo palavras que nem chegam à boca e espalho sobre o branco o meu inteiro.
Sozinho enfrento a tua voz acre-doce a adivinhar minhas palavras. Aprendi me mostrando,
corpo de cores sozinho, futuro de ave a espreitar manhãs.
As nuvens ainda me extasiam, sensação do sempre amarrando coisas sobre um nada de mim. O som das palavras recria o inverso. Silêncio que se espalha. Às vezes andorinhas
sonham adormecidas, decifram o desconhecido e me inibem risos.
Quero roubar os teus olhos, tua discrição e encerrar com palavras pintando objetos e suas sombras.

Marcos Vidal

quinta-feira, 19 de maio de 2011




Do lugar onde me encontro
Teus seios montanhosos
Levam-me a deslizar-te.

Teu rosto altivo desemboca
Nos lábios que parecem
Dizer: quer colo?

Eu sigo minha viagem
A passear contigo pelo quarto
E a fazer-te minha amante.

Tuas unhas rasgam-me a pele
E ensanguentado lambuzo-te toda
De vida terra fosca.

Depois o cigarro...
A porta bate e só o teu
Perfume ainda ecoa na cama.


Marcos Vidal