quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vai...




Vai...
Faz de conta que me ouve
E cola teu ouvido em meu coração.
Não deixa a lua solta nessa tua amplidão.
Guarda um segundo pra minha voz
Pois o vento, mesmo veloz, há de ouvir
O que tenho pra dizer.

Vai...
Escuta com os olhos as silabas
Dos meus cílios
Escuta o meu sorriso quando
Separo meus lábios do teu...
Guarda a minha ânsia no teu silêncio.

Vai...
Mas vai logo... pois as estrelas não tardam em dormir
Quem sabe uma nesga de luz estrelar
Te faça brilhar manhãs.

Vai...
De mansinho pela madrugada
Escuta o lamento no blues que gravei pra ti.
Sem cor, azul desbotado
Esgarçado de velho filme.

Vai...
E rouba das borboletas
O vento mais brando que puderes reter.
Na alvorada cinzenta
Retire-me o ar...
E quando notares que o silêncio jaz
Guarda-me sem pressa
Em tuas noites preguiçosas.


Marcos Vidal

sábado, 28 de maio de 2011

Palavras sem endereço

Falo e ninguém me ouve. Uma teia em meus olhos, tudo preto e branco. Deserto de sombras, cotidiano de maresia consciente onde cartas se perdem. Alguém por um segundo
pensou e enterrou o não dito, atravessadamente. Sensação do real, outra coisa inegavelmente viciante.
Sonho quando o mar canta e acordo sem rumo, estrada de barro enlameada, beleza seca.
Tenho mergulhado em mim abissalmente, entre coisas salgadas que nada dizem.
Escrevo palavras que nem chegam à boca e espalho sobre o branco o meu inteiro.
Sozinho enfrento a tua voz acre-doce a adivinhar minhas palavras. Aprendi me mostrando,
corpo de cores sozinho, futuro de ave a espreitar manhãs.
As nuvens ainda me extasiam, sensação do sempre amarrando coisas sobre um nada de mim. O som das palavras recria o inverso. Silêncio que se espalha. Às vezes andorinhas
sonham adormecidas, decifram o desconhecido e me inibem risos.
Quero roubar os teus olhos, tua discrição e encerrar com palavras pintando objetos e suas sombras.

Marcos Vidal

quinta-feira, 19 de maio de 2011




Do lugar onde me encontro
Teus seios montanhosos
Levam-me a deslizar-te.

Teu rosto altivo desemboca
Nos lábios que parecem
Dizer: quer colo?

Eu sigo minha viagem
A passear contigo pelo quarto
E a fazer-te minha amante.

Tuas unhas rasgam-me a pele
E ensanguentado lambuzo-te toda
De vida terra fosca.

Depois o cigarro...
A porta bate e só o teu
Perfume ainda ecoa na cama.


Marcos Vidal

terça-feira, 19 de abril de 2011

A garotinha




O contrário estava estendido
Nas palavras da garotinha inocente
De enxergar através do espelho
O ser da gente, no reflexo da alma.

Ela estava ali a afirmar
O desmantelo do guardado
Do eterno mistério do ser
Como as matizes são também.

Agora o sabor da minha altivez
Tinha um gosto amargo
De saber que a garotinha
Era também vidente.

A surpresa forçou-me os olhos e
Desvanecido morri por dentro
Como um manequim que depende
De luz pra ser.

Marcos Vidal

quarta-feira, 23 de março de 2011

Conscidencia




O vaso rutilou
a nossa separação
desfez-se no chão
sem cor, entre a madrugada
e a manhã, hirta do peso
de tuas sobrancelhas cerradas.

Reparo tua boca que nada diz
quando tudo margeado
de nós dois, à beira mar
uma estrela se apagou na lagoa morta

O vaso agora mosaico
sem beira, sem forma
retrato aberto na esquina do
fogo, a noite toda
sem nada queimar

Eu vi quando deixaste, entre aberta,
a tua vida no canto futuro
arranhando língua
atordoando sensatez
acutilando meu entre
esperando de mim o que não sou

O nosso vaso
por acaso, retrato do fim
agora descansa hirto
no chão branco da sala.



Marcos Vidal

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A verdade





Deixo a verdade exposta
Nua, de peitos à vista
Com o sexo exposto de
Sangue coalhado
Reluzente em sua extensão
Marginal em sua essência
Famigerada e triste
À espera da noite alta
Debruçada e encardida
Do verão altissonante
Arrebol esquálido de endemia leve.

Despe-se da inversão ali
Na antecâmara sem cor
Aguardando a crueza tua
De molhar a boca famigerada
E luzir de brios
A farsa do real engalhada
Por cigarras secas de tanto gritar.

Ela geme frenética
No romper da madrugada...
Temerosa, segue sozinha
Certa de todas as coisas.


Marcos Vidal

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Asas da Ilusão





Prenhe de ideias Ele abortou o instante.
Inundado de confiança
Crente de alegria, apaixonou-se:
cegueira de esperma em óvulos crescentes.

Distraído, pôs-se a cantar ao vento,
sem saber ao certo se o contentamento
seria fugaz.
O vento traiçoeiro e livre
espreita a flor
bem ali
à beira do lago cor de musgo.

No cais
o frio congela uma ilusão à toa.
Em sentido contrário
o corpo inebria encantamentos
e entontece razão.

Morcegos esvoaçam sonhos
deitam figos cor de sangue e
arranham a paisagem sem lua.
Logo atrás do pensamento
uma mosca se perdeu.

O louco pobre
de salões
dança pelado,
ardido do tempo
cansado de rua
bem ali por trás da serra
onde cavalos alados entoam
ventos com asas.

Nuvens fertilizam seres
onde o céu se deita
um lampião alumia a escuridão
sinais dos tempos dos homens.
Na Terra, quem tem fome
embarca sentido em tudo que vê.




Marcos Vidal