sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Tu conseguirias?




Tu conseguirias
atrás do pensamento
esconder a minha dor
sob a borda do esquecimento
de franjas e neves?

Tu conseguirias  
beijar-me, afogar-me de tua saliva
depois regurgitar-me
em teu jardim sem flores?

Tu conseguirias
fingir que me ama
e depois, cansado de mim,
Dizer-me a verdade em letras garrafais?

Ou esperar a dor sarar
da saudade passar,
pra dizer que ainda me quer
sem cinzas de poeiras nos olhos?  

Ou espancar-me de afagos
Despindo-me alegre e fagueira
Atravessando-me a alma
Antes do anoitecer?

Ou retirar-me o ar
Deixando-me morrer
Embalado sob pequenos movimentos
Ardilosamente preparados pelo teu corpo?

Tu conseguirias?  

Marcos Vidal

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Eu quero fugir de mim



Antes que a noite acabe
Antes que a lua se apague
Antes que o sol me cubra
Eu quero fugir de mim.

Antes que me desconheça
Antes que a lua mingue
Antes que a flor morra
Eu quero fugir de mim.

Antes que tudo faleça
Antes da enxaqueca cegar-me
Antes do antes do antes
Eu quero fugir de mim.

Antes que a sombra cresça
Antes que eu desapareça
Antes que o mundo apague
Eu quero fugir de mim.

De forma branda
De ponte-aérea
De pedalinho
Com entorpecentes
Com remédios
Com literatura.

Marcos Vidal

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Se eu pudesse...



Se eu pudesse dividir a tua dor,
A tua respiração trancada,
Os teus olhos mareados de cimento
E nuvens... Se eu pudesse
Sentiria tudo inversamente
Adequando brisas as tuas
Noites quentes, sem medo de
Fazer-te frio.
E de manhãzinha te acordaria com
Café bem quente e adornaria teu corpo
De frutas muitas.
Ah! Seu pudesse...
Correria sonhos em meu cavalo
Marinho e subiria a pé as escadarias da Penha
E cumpriria a promessa de enraizar-te em mim.

Marcos Vidal


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Sensações sobre o primeiro dia do ano



Deixa-me respirar um pouco dessa fantasia, dessa euforia e de tudo que leve tempo pra se acostumar. Um pouco de harmonia nesse tal egoísmo fingido, de poder acreditar que a diferença se instaura no olhar, de poder acreditar ser como os outros nos veem.
A minha poesia revira as coisas, as pessoas, o real. Viver entre esse limiar faz de mim um ser ausente e bucólico, antecedido pelo pouco valor que dou as coisas.
Sobre a película da vida descubro coisas, nunca com tempo de rever ou reviver, e mesmo sabendo disso não sou como os outros; e ficar no meio do caminho virou mania minha. O futuro de todo ano novo é fantasioso e sem escrúpulos, embora o tempo em que passo a pensar nos instantes que compõem a vida não leve a resultado nenhum.
 A neutralidade instaura um sabor de novidade, de fugacidade entre dois seres estranhos que se encontram e se reconhecem um no outro, como num déjà vu a embaralhar o centro do pensamento que deseja desvendar o mistério do já visto. É dessa sensação de que falo, dessa arrogância, dessa misteriosa cereja que compõem a nossa cobertura.
Estagnar o futuro no presente mais simples e alegre, congelar a sensação do ventre da mãe em todos os instantes, no desenho que fazemos com as mãos no ar, no corpo mudo que os outros leem sem tarja preta, sem censura, a leveza que somos sabendo-se pesado, trancado a sete chaves no mais puro deslumbre dos fogos que clareiam o céu. O primeiro dia deveria ser néctar adocicado antevisto pela lente de uma abelha, a traçar caminhos que perfazem o sentido natural e animal da nossa estrutura cerebral. Molécula arritimada, pétala seca sobre trilhos de pedra, córrego d’água a ferir de perto o caminho das formigas. E eu, também esse ser mínimo e inoperante, deixo o vento levantar-me a vela e dizer-me o caminho das moscas nesse ano que começa.
 Primeiro dia ausente: sem a festa dos olhos, sem o sorriso largo dos morcegos, sem a cruel mania de achar algo sobre tudo, sem conseguir cavalgar sobre o irreal se achando, sem a busca frenética e irresistível da perfeição, do fazer-se presente, sem a repetição inanimada e mareante sobre o medo, sem a febre da casa vazia sob as nuvens desenhadas a lápis, sob os cogumelos flamejantes derretidos por conta do sol escaldante na cidade que vai sendo consumida pelo calor nada humano.
A quentura vai engolindo a gente com sua boca enorme, transformando corpos e pensamentos, estagnando vírus em nós. O primeiro dia não aquece as previsões, e, alucinado, estabeleço o vazio como meta zen e reumática a perseguir a ilusão ensanguentada da mentira seca. O primeiro dia me enoja de contar nos dedos a minha falsa plenitude, de seguir com a educação acreditando ser, mas que ninguém percebe. Tudo que faço é para que percebam a minha educação? Nunca fiz. Mas estou cansado e desnutrido de fingir que educação é mania nacional. Foram me moldando desde que nasci. Abro a porta e saio sem saber se antes era o meu corpo mesmo que dizia tudo que foram creditando a minha pessoa, a me obrigarem a andar na corda bamba, a fazer o poeta a gritar sem som, que pra fazer valer o brilho dos meus olhos precisei comprar palavras.
 Essa arrogância cibernética a mudar as pessoas entrecortadas de cliques, o deus estampado na palma da mão a comandar o cursor, a redirecionar a ilusão em uma potência maior. O primeiro dia é sem parágrafo, sem compra nem venda, sem arquitetura, com afunilamento, com mais lamento que funil, mais estreito, inquieto, desejando soberba, mais fraco, irrisório.
Cada vez mais o desejo pelo real inunda a minha veia. Vai dando uma rouquidão, uma paranóia, dada a volúpia de emoções desconcertadas e atrevidas, porque a morte sempre estará ali a espreitar de soslaio com a sua imensidão misteriosa a nossa pequenez. Sensações que o primeiro dia causou em minha mente cansada e velha, sempre velha, a descobrir um corpo sem ritmo, perdido entre os vivos.
Estar perdido e saber que se está perdido dói mais do que quem sofre de Alzheimer. A lucidez esquarteja o instante das coisas quando se está ausente, essa razão de buscar ser, de querer esquecer sem saber como. Acabei de passar pelo primeiro dia, e tudo que guardei foi a D. Hermínia dizendo-se perdida em frente à porta do quarto.
Salve a saúde da vida, meu ano novo querido!

Marcos Vidal

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

THELMA


THELMA

Era a carne esponjosa e pulsante a dar um toque aveludado àquele corpo ainda jovem de mulher que parecia saber das coisas. Entre o prazer e a loucura ela se fez. Nutria o corpo sob outros corpos sobre o seu, e assim, aprendeu a vendê-lo. Decerto a sua moral havia desaparecido, seu ego desfragmentado e a luxuria crescido. O fato é que ela derretia-se sobre o prazer da carne, embora certa melancolia chegasse ao final deixando-a frágil e viciante sem conseguir romper com aquele vício que se esvaía em outro programa. 
            Assim, seguia pelas normas impostas pelo corpo a destruir-se diante da realidade. Eram chamas à lá inferno de Dante a cercar-lhe o corpo embebido de perfume: feromônio extremo, cheirando como uma cadela, incansavelmente atroz, como se a vida estivesse entre matar a fome do corpo e a melancolia existente após cada coito sem lembranças. Não havia memória daquelas noites luxuriantes, a não ser pelas marcas sangrentas a consumir-lhe a genitália já desfigurada e amortecida pela quantidade de vezes que o sexo impunha.
O corpo ia dando sinais de uma mente cansada de lutar contra o pouco de consciência que ainda havia. Dores intestinais, escorrimento vaginais, tremores nas mãos, pedras sangrando em sua alma, sinais de que estava desaparecendo, sumindo aos poucos. Buscava alento, saúde, paz, nuvens brancas em seu céu que nunca mais esteve azul. Sobre sua anatomia, muitas dúvidas, alma em fúria, arrogante prazer capaz de diminuir o menor dos seres.   
Aos poucos fantasmas zombavam de sua alegria, dividindo a consciência inexistente e fugidia, ora acesa e brilhante, ora diminuta e feia. Aquela angústia presente, sexo após sexo também lhe consumia os sonhos, depois ficava ainda mais  oca, noite após noite, dia após dia, embebida numa culpa estrondosa de cor vermelha a dominar-lhe as entranhas. Seus olhos parados miravam o teto pela manhã sem saber se aguentaria mais um dia, enquanto seus olhos acompanhavam o percurso da aranha a tecer a mesa para o seu café da manhã.
Não comandar mais o seu prazer alojava certo perigo iminente, como se em instantes viesse outro ímpeto inesperado. Os sonhos, alguns deles provocados por catarses inesperadas, motivavam os fatos para que fosse maior a sua dor eterna. Sua mente nervosa e deslumbrante nunca cessava de pensar e agir. Lembrava casos, repetia palavras, gaguejava e trocava o significado de algumas. A loucura vinha chegando mansa, em intervalos mínimos como ondas do mar.
Inesperadamente, engravidou. De súbito, uma nova mulher brotou dentro dela, embora tivesse que lutar incansavelmente contra o próprio corpo. Sete meses depois nascia Giovanna, uma linda menina de olhos claros e cabelos lisos. Nasceu prematura porque não conseguiu conter a volúpia de sua mãe, que mesmo grávida deitava-se com muitos homens que tinham o fetiche de transar com mulheres grávidas.
Tudo o que Thelma nos disse antes de ser internada no manicômio foi de que sua menina devia estar com fome. Fechou os olhos e adormeceu dentro de si para nunca mais voltar.
A dor da perda da filha somada a necessidade do corpo, explodiu dentro da realidade dela enquanto nuvens sobrevoam sua liquidez. Sua menina havia sido levada. Este, o ponto inicial de sua loucura. Tudo o que possuía era a sua menina. Thelma vinha dando sinais de que sua mente estava cansada do real. Pequenos surtos antes da menina nascer tornou-se uma constante. Após o parto, como que um pequeno milagre instaurado em sua mente consciente, tornou-a saudável de novo. Mas foi por apenas alguns segundos, somente o instante em que o médico colocou Giovanna em seus braços. O nome da menina saiu como uma flor que desabrocha sem perceber aos nossos olhos. Depois, o cansaço tomou-lhe o corpo. Ao abrir os olhos, a velha Thelma não mais existia.
A menina foi adotada por um casal que também lhe chamaram Giovanna. Thelma foi piorando, e se antes já não podia contar com ninguém por causa de sua compulsão por sexo, agora mesmo estava sozinha. Perambulou por muitos hospitais, viveu na rua, até ser encontrada por padre Antônio. Hoje vive num abrigo em Marechal Hermes. Aliás, foi lá que a conheci. Tudo que faz é alisar as mãos, como se quisesse arrancar certa aliança imaginária a consumir-lhe os dedos, num ir e vir do corpo a balançar sempre continuamente. Os olhos parados e fixos não contemplam nada, o único sentido ainda aguçado é o da audição. A Música lhe faz bem, assim como as histórias de faz de conta, ou qualquer fantasia que a leve de volta para um lugar onde a sua mente consiga se perceber dentro da esquizofrenia latente.
A última vez a vi era só um corpo deitado em seu quarto. Não dormia, olhava fixamente para a parede, espantada, embotada, invertida. Aquele olhar parado nunca mais saiu de minha cabeça. Despedi-me e parti para nunca mais voltar, agarrado àqueles olhos tristes que ainda me cercam as noites mal dormidas.

Marcos Vidal